Agronegócio
Independência ou morte: Brasil alimenta o mundo, mas ainda depende do exterior
Publicado
7 de setembro de 2026, 09:00
Neste 7 de Setembro, 204 anos depois da Independência, o Brasil chega à data como uma das maiores potências agropecuárias do planeta. O país produz comida, fibras e energia em escala suficiente para abastecer seu mercado e atender centenas de destinos. Essa força garante divisas, empregos e estabilidade à economia, mas ainda não representa uma soberania completa: boa parte dos insumos que tornam possível a produção vem do exterior.
A dimensão conquistada pelo setor ajuda a explicar por que a independência econômica brasileira passa, necessariamente, pelo campo. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio alcançou R$ 3,2 trilhões, o equivalente a 25,1% da economia nacional, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
O agro também empregou o número recorde de 28,4 milhões de pessoas, reunindo 26,3% dos trabalhadores do país. A conta considera não apenas quem planta ou cria animais, mas também os empregos nas indústrias de insumos, frigoríficos, usinas, transportadoras, cooperativas, empresas de armazenagem e demais serviços ligados à produção.
No comércio exterior, a contribuição é ainda mais evidente. As exportações do agronegócio somaram US$ 169,1 bilhões em 2025 e corresponderam a 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior. O setor acumulou superávit de aproximadamente US$ 149 bilhões, mais que o dobro do saldo positivo de US$ 68 bilhões registrado pela balança comercial brasileira como um todo.
Isso significa que o resultado do campo compensa déficits existentes em outros segmentos e ajuda o país a pagar importações, acumular reservas e reduzir sua vulnerabilidade externa. Sem as divisas geradas pelo agro, a pressão sobre o câmbio, a inflação e as contas externas seria muito maior.
A força produtiva também continua avançando. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra brasileira de grãos alcance o recorde de 360,8 milhões de toneladas em 2025/26. A soja deve responder por 180,5 milhões de toneladas e o milho, por 143 milhões. Arroz, feijão, trigo, algodão e outros produtos completam uma colheita que seria inimaginável há poucas décadas.
O salto não ocorreu apenas pela abertura de novas áreas. Ciência, correção dos solos, melhoramento genético, mecanização e técnicas adaptadas ao clima tropical transformaram regiões antes consideradas pouco apropriadas à agricultura em grandes polos produtivos. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), universidades, cooperativas e centros privados tiveram papel decisivo nessa construção.
A agricultura também ampliou a autonomia energética do país. Cana-de-açúcar, milho, soja, gorduras animais e resíduos agroindustriais abastecem a produção de etanol, biodiesel, biogás, biometano e eletricidade. Em 2025, as fontes renováveis representaram 49,4% da matriz energética brasileira, uma participação muito superior à média mundial. A biomassa produzida no campo é parte essencial desse resultado.
Produzir em grande escala, entretanto, não elimina as vulnerabilidades. A mais grave está nos fertilizantes. Entre 85% e 90% dos adubos utilizados nas lavouras brasileiras são importados. Além disso, os fertilizantes representam mais de 40% do custo de produção em algumas culturas.
Na prática, uma guerra, uma sanção comercial, o fechamento de uma rota marítima ou uma decisão tomada por países fornecedores pode aumentar o custo de plantar no Brasil. O país domina a produção de alimentos, mas ainda depende do exterior para receber parte expressiva do nitrogênio, do fósforo e do potássio usados na lavoura.
O Plano Nacional de Fertilizantes estabelece como objetivo elevar a produção doméstica para algo entre 45% e 50% do consumo até 2050. É uma meta de longo prazo diante de uma fragilidade que já afeta o produtor. A reativação de fábricas, o aproveitamento de reservas minerais, a produção de fertilizantes organominerais e a expansão dos bioinsumos precisam avançar com maior velocidade.
A dependência também aparece em produtos que fazem parte da alimentação cotidiana. O Brasil é uma potência na produção de soja, milho, carnes, açúcar e café, mas continua precisando importar trigo para atender à demanda interna. Em 2025/26, a colheita brasileira do cereal deve ficar próxima de 5,8 milhões de toneladas, volume insuficiente para cobrir o consumo do país.
A armazenagem é outra fragilidade. O Brasil dispunha, ao final de 2025, de capacidade para guardar 233,8 milhões de toneladas de produtos agrícolas. O volume equivale a aproximadamente 65% da safra de grãos projetada para 2025/26. Embora os armazéns possam receber mais de um produto ao longo do ano, a diferença mostra a pressão enfrentada durante os períodos de colheita.
A ausência de silos próximos às propriedades obriga produtores a vender rapidamente, aumenta filas, encarece o frete e reduz o poder de negociação. Para o país, significa maior risco de perdas, dificuldade para formar estoques reguladores e menor capacidade de responder a secas, enchentes ou interrupções no abastecimento.
O governo autorizou neste mês até R$ 500 milhões para a compra de arroz e a aquisição de até 260 mil toneladas de milho. As operações pretendem recompor estoques públicos e atender pequenos criadores, especialmente no Nordeste, diante do risco de impactos do El Niño. A iniciativa expõe, ao mesmo tempo, a importância desse instrumento e o quanto a capacidade pública de intervenção foi reduzida ao longo dos anos.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), a soberania de uma nação começa pela capacidade de alimentar sua população.
“O Brasil conquistou uma posição extraordinária porque produz alimentos, fibras e energia em quantidade suficiente para atender ao mercado interno e ainda abastecer outros países. O agro garante divisas, empregos e estabilidade econômica. Sem essa força construída no campo, nossa independência seria muito mais política do que econômica”, afirma.
Rezende pondera, entretanto, que o país ainda depende do exterior para obter insumos essenciais à produção. “Não existe soberania plena quando importamos quase todo o fertilizante necessário para plantar. Uma guerra, uma sanção ou o fechamento de uma rota marítima pode elevar os custos e comprometer a próxima safra. O Brasil precisa acelerar a produção nacional de fertilizantes, investir em bioinsumos e proteger a pesquisa agropecuária. Quem não domina a tecnologia e os insumos de que necessita sempre estará sujeito às decisões de outros países”, analisa.
“Soberania alimentar não significa apenas produzir grandes safras. Exige que a comida chegue à população em quantidade, qualidade e preço acessível. Um país pode bater recordes de produção e ainda enfrentar insegurança alimentar quando há perda de renda, logística deficiente, desperdício ou dificuldade de acesso aos alimentos”.
“Também não significa fechar as fronteiras ou abandonar o comércio internacional. A verdadeira independência está em negociar sem ficar refém de um único fornecedor, comprador ou corredor logístico. Isso requer diversificação de mercados, defesa sanitária eficiente, rastreabilidade e rapidez para atender a novas exigências internacionais”.
“A recente suspensão europeia de produtos brasileiros de origem animal mostrou que a soberania também depende da capacidade de comprovar como se produz. Mesmo quando não há problema identificado na qualidade do alimento, falhas no reconhecimento dos controles sanitários podem fechar mercados, reduzir receitas e atingir os preços pagos ao produtor. O mesmo vale para a concentração das vendas em poucos destinos. A China é fundamental para o agronegócio brasileiro, mas ampliar a presença na Ásia, na África, no Oriente Médio e nas Américas diminui o impacto de eventuais disputas comerciais ou mudanças nas políticas de um grande comprador”.
“Uma independência efetiva passa ainda por crédito rural previsível, seguro capaz de proteger a renda, defesa agropecuária, irrigação, conectividade, estradas, ferrovias e pesquisa pública. Sem esses pilares, recordes de produção podem conviver com produtores endividados, margens apertadas e regiões vulneráveis aos extremos climáticos. O Brasil já conquistou uma posição rara: possui terra, água, clima, produtores, conhecimento científico e agroindústria para garantir alimentos e energia renovável. O próximo passo é transformar essa potência em segurança duradoura. Neste 7 de Setembro, a principal mensagem que vem do campo é clara: um país que não controla os insumos, a tecnologia e a infraestrutura necessários para produzir ainda não alcançou plenamente sua independência”, conclui Isan Rezende
Fonte: Pensar Agro
Agronegócio
Expointer movimenta R$ 6,2 bilhões e máquinas puxam avanço de 40%
Publicado
8 de setembro de 2026, 09:00
A 49ª Expointer encerrou sua programação com R$ 6,18 bilhões em negócios, crescimento de 39,8% sobre a edição de 2025. O resultado superou as expectativas iniciais e mostrou disposição dos produtores para voltar a investir em máquinas, tecnologia, animais e modernização das propriedades.
O setor de máquinas e implementos agrícolas liderou as negociações, com R$ 5,46 bilhões, alta de 44,83% em um ano. O segmento respondeu por aproximadamente 88% de todo o volume financeiro movimentado durante os nove dias de feira no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio.
O desempenho ficou acima das projeções apresentadas antes e durante o evento. Representantes da indústria trabalhavam com a possibilidade de vendas próximas de R$ 4 bilhões em máquinas. O resultado final ultrapassou essa referência em cerca de R$ 1,46 bilhão.
A reação é relevante porque a compra de uma máquina representa uma decisão de investimento de longo prazo. Tratores, colheitadeiras, pulverizadores, plantadeiras e equipamentos de precisão não atendem apenas à expansão das lavouras. Também permitem reduzir perdas, economizar insumos, executar as operações dentro da janela ideal e aumentar a produtividade.
Parte da procura está relacionada à necessidade de renovação da frota. Produtores que adiaram a substituição de equipamentos voltaram a avaliar compras, especialmente diante da perspectiva de recuperação dos preços de grãos e da valorização da pecuária. A proximidade da implantação da safra de verão também ajudou a colocar tecnologia e capacidade operacional no centro das decisões.
A Massey Ferguson levou 11 lançamentos à Expointer, com atenção especial aos equipamentos destinados à agricultura familiar. A empresa identificou demanda entre produtores profissionalizados que mantiveram o planejamento de médio prazo e precisam ampliar a eficiência das propriedades.
A CNH, controladora das marcas New Holland e Case IH, também utilizou a feira para reforçar suas soluções financeiras e apresentar tecnologias voltadas ao aumento da produtividade. As condições oferecidas incluíram consórcios e linhas do Plano Safra, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar Mais Alimentos (Pronaf Mais Alimentos), o Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota) e sua modalidade destinada ao médio produtor.
Além das linhas bancárias tradicionais, consórcios, cooperativas, financiamento das próprias fabricantes e operações de troca de insumos ou equipamentos por parte da produção ampliaram as possibilidades de negociação. A combinação dessas modalidades permitiu adequar prazos e pagamentos ao fluxo de receita de diferentes propriedades.
O resultado não ficou restrito às máquinas. O setor automobilístico movimentou R$ 668,75 milhões durante a feira. As vendas de animais alcançaram R$ 21,99 milhões, avanço de 21,02% em comparação com 2025. Ao todo, 7.926 animais foram inscritos para exposições, julgamentos e competições.
O Pavilhão da Agricultura Familiar registrou R$ 14,4 milhões em vendas, aumento de 5,57%. Os 509 estandes reuniram empreendimentos de 216 municípios gaúchos, entre agroindústrias, produtores de plantas e flores, artesãos e cozinhas.
Das iniciativas presentes no pavilhão, 400 eram agroindústrias familiares, 74 atuavam no artesanato e 28 comercializavam plantas, mudas e flores. A feira também reuniu 265 empreendimentos conduzidos por jovens, 179 liderados por mulheres e 69 com certificação orgânica.
O artesanato movimentou outros R$ 2,11 milhões. Entre os expositores estavam empreendimentos indígenas e quilombolas, ampliando a presença de diferentes formas de produção e geração de renda dentro do espaço destinado à agricultura familiar.
A movimentação econômica foi acompanhada por um público de 938.470 visitantes. Somente no domingo (6), último dia do evento, 144.516 pessoas passaram pelo parque. A presença de consumidores urbanos, famílias, estudantes e profissionais do setor reforçou a função da Expointer como ligação entre o campo, a indústria e as cidades.
Os números mostram uma feira com crescimento distribuído entre diferentes segmentos. O avanço mais forte das máquinas revela confiança na continuidade da produção e na busca por ganhos de eficiência, enquanto os resultados da agricultura familiar, dos animais e dos veículos demonstram que a movimentação alcançou propriedades de diferentes portes.
Mais do que contabilizar propostas e contratos, a Expointer funcionou como uma vitrine das decisões que deverão aparecer nas próximas safras. A renovação de equipamentos, a adoção de novas tecnologias e a procura por soluções financeiras indicam que parte dos produtores voltou a planejar investimentos.
A próxima edição terá caráter histórico. A 50ª Expointer será realizada de 28 de agosto a 5 de setembro de 2027, novamente no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil. A feira chegará aos 50 anos depois de encerrar 2026 com R$ 6,2 bilhões em negócios e um sinal positivo de confiança no futuro do campo.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócio
Safra de soja põe crédito rural à prova: custeio pode superar R$ 212 bilhões
Publicado
8 de setembro de 2026, 08:30
O Brasil começa a plantar uma safra de soja com potencial para alcançar entre 183,5 milhões e 185,6 milhões de toneladas, mas o resultado não dependerá apenas do clima. Antes de germinar no campo, a produção precisa caber no caixa do agricultor. Crédito restrito, aumento dos custos e dívidas acumuladas após sucessivas perdas regionais podem limitar o investimento justamente quando o país tenta renovar seu recorde.
O Plano Safra 2026/27 reservou R$ 610,3 bilhões para o financiamento da agropecuária. Desse total, R$ 525,1 bilhões são destinados à agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões à agricultura familiar. Dentro do programa empresarial, R$ 384,9 bilhões foram programados para custeio e comercialização, enquanto R$ 140,2 bilhões atendem investimentos.
O valor é o maior já anunciado, mas não representa dinheiro automaticamente disponível a qualquer produtor. Os recursos atendem todas as atividades agropecuárias, não apenas a soja, e sua liberação depende da modalidade, da fonte financeira, da existência de limite no banco, da análise de risco, das garantias e da capacidade de pagamento do interessado.
Também existe uma diferença entre o volume global do Plano Safra e o crédito oferecido com juros equalizados. A equalização ocorre quando o Tesouro Nacional cobre parte do custo financeiro para que o produtor contrate a operação com taxa inferior à praticada no mercado. Para o ciclo atual, as linhas abrangidas por esse mecanismo somam R$ 141,8 bilhões, dos quais R$ 97,5 bilhões são destinados a médios e grandes produtores e R$ 44,3 bilhões à agricultura familiar.
A dimensão da necessidade financeira pode ser percebida pela extensão das lavouras. O Brasil deverá plantar entre 49 milhões e 49,3 milhões de hectares de soja. Não existe um custo único para todo o país, pois os gastos variam conforme região, fertilidade do solo, produtividade pretendida e pacote tecnológico adotado.
Uma simulação ajuda a demonstrar a ordem de grandeza. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) calcula em R$ 4.315,29 por hectare o custeio da soja em Mato Grosso. Se esse valor fosse usado apenas como referência para a área nacional, a implantação das lavouras exigiria aproximadamente R$ 212 bilhões. A conta é ilustrativa e não inclui todos os custos com terra, depreciação, armazenagem, comercialização e encargos financeiros.
Em Mato Grosso, onde estão previstos 13,05 milhões de hectares, a aplicação dessa referência representa uma necessidade de cerca de R$ 56 bilhões apenas para o custeio da soja. Fertilizantes, corretivos e defensivos estão entre os itens que mais pressionaram o orçamento para a nova temporada.
No primeiro mês do Plano Safra, a agricultura empresarial contratou R$ 28,2 bilhões. As Cédulas de Produto Rural (CPRs) responderam por R$ 18,8 bilhões, ou 66,6% do total, enquanto o custeio bancário convencional alcançou R$ 6,5 bilhões. Os números mostram que o financiamento da produção já não depende predominantemente das linhas tradicionais anunciadas pelo governo.
Isan Rezende
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), engenheiro agrônomo Isan Rezende, as previsões para a soja são positivas, mas precisam ser examinadas além da perspectiva climática.
“As projeções mostram que o Brasil pode colher outra safra extraordinária, próxima de 186 milhões de toneladas. Mas essa produção ainda está no papel. Para transformar potencial em colheita, o produtor precisa de chuva regular, sementes de qualidade, fertilizantes, defensivos, máquinas e crédito disponível no momento correto. Não é apenas o clima que decidirá o tamanho da safra”, afirma.
Segundo Rezende, o volume anunciado no Plano Safra é expressivo, mas o principal desafio está na chegada do recurso à propriedade. “O produtor não planta com o anúncio de bilhões de reais. Ele planta quando o financiamento é aprovado, o limite é liberado e o dinheiro chega antes da janela de semeadura. Se o crédito demora, exige garantias que ele já não possui ou aparece a um custo incompatível com a margem, o recurso existe na estatística, mas não na lavoura.”
O endividamento, na avaliação de Rezende, pode atingir principalmente agricultores que sofreram perdas em temporadas anteriores e precisam manter a atividade. “Muitos produtores não deixaram de pagar porque administraram mal. Foram atingidos por seca, excesso de chuva ou queda de preços depois de colocar uma safra cara no campo. Se a renegociação apenas alongar a dívida, mas não recuperar o acesso ao crédito novo, teremos produtores com prazo maior para pagar e sem dinheiro para continuar produzindo.”
Rezende defende a diversificação das fontes, acompanhada de planejamento. “CPR, barter, cooperativas, revendas, tradings, venda antecipada e recursos próprios são alternativas importantes, mas nenhuma deve ser contratada sem avaliar custo, garantias e volume de produção comprometido. Em uma safra com risco climático, vender ou entregar antecipadamente uma parcela excessiva da colheita pode transformar uma quebra de produtividade em um problema financeiro ainda maior.”
As CPRs podem ser emitidas com liquidação física, quando o compromisso é pago com a entrega do produto, ou financeira, quando o pagamento ocorre em dinheiro. O instrumento amplia o acesso a recursos privados, mas exige atenção aos juros, às garantias, ao preço de referência e às condições previstas para o vencimento.
O barter funciona como uma troca: o produtor recebe sementes, fertilizantes e defensivos e assume o compromisso de entregar determinada quantidade de soja depois da colheita. A operação permite travar a relação entre o custo do insumo e o preço do grão, reduzindo parte da incerteza. Em contrapartida, compromete antecipadamente uma parcela da produção.
Cooperativas, revendas e tradings também oferecem financiamento vinculado à compra futura da safra. Produtores com estrutura maior podem acessar fundos de investimento nas cadeias agroindustriais, certificados de recebíveis e outras operações do mercado de capitais. Essas alternativas costumam exigir governança, documentação, garantias e escala superiores às cobradas nas linhas bancárias tradicionais.
A venda antecipada pode gerar caixa e assegurar preço para uma parte da produção, mas deve ser compatível com uma estimativa conservadora de produtividade. Em anos de instabilidade climática, comprometer uma quantidade próxima do potencial máximo da propriedade aumenta o risco de o produtor precisar comprar soja no mercado para cumprir o contrato.
O seguro rural e a proteção de preços não substituem o financiamento, mas ajudam a preservar a capacidade de pagamento. O seguro reduz o impacto financeiro de perdas cobertas, enquanto contratos futuros e opções podem limitar a exposição a quedas nas cotações. A combinação dos instrumentos tende a ser mais segura do que concentrar todo o risco em uma única fonte ou estratégia.
A situação dos produtores endividados aumenta a preocupação. O Banco do Brasil calcula que até R$ 100 bilhões de sua carteira agropecuária podem se enquadrar nas novas regras de renegociação. Desse montante, R$ 36,7 bilhões correspondem a créditos inadimplentes e R$ 63,5 bilhões a operações ainda em dia, porém já prorrogadas ou renegociadas. A estimativa envolve até 113 mil clientes e não representa todo o endividamento rural do país.
A Medida Provisória 1.376/2026 criou condições para refinanciar dívidas de produtores atingidos por perdas, mas o acesso continua condicionado à comprovação dos prejuízos e à aprovação dos bancos. Entidades do setor relatam demora, divergências na aceitação de laudos, exigência de novas garantias e cobrança de entrada em algumas operações.
Com margens menores, o efeito da restrição financeira pode aparecer dentro da lavoura. O agricultor sem capital suficiente tende a adiar compras, reduzir adubação, trocar produtos, diminuir investimentos em correção do solo ou limitar aplicações necessárias. Essas decisões preservam o caixa no curto prazo, mas podem retirar produtividade da safra que hoje aparece como recorde nas projeções.
O Brasil dispõe de um volume elevado de crédito e de um mercado privado mais diversificado do que no passado. O problema não é apenas quanto foi anunciado, mas quem conseguirá acessar, a que custo e em qual momento. A chuva continuará decisiva, mas, antes dela, será o financiamento que determinará quantos hectares receberão o pacote tecnológico necessário para alcançar as 186 milhões de toneladas projetadas.
Fonte: Pensar Agro
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