Agronegócio
Com estoques públicos de arroz e feijão quase zerados governo tenta recompor estoques
Publicado
6 de setembro de 2026, 11:00
O Brasil chega ao novo período de risco climático com estoques públicos reduzidos justamente em alguns dos alimentos mais sensíveis para o consumidor. Em julho, último dado consolidado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o governo possuía apenas 293 toneladas de arroz, 207 toneladas de feijão, 6,6 mil toneladas de trigo e 125,5 mil toneladas de milho.
Os números ajudam a explicar a decisão do governo federal de autorizar até R$ 500 milhões para a compra de arroz e ampliar de 50 mil para 260 mil toneladas o volume de milho que poderá ser adquirido em 2026. As medidas foram apresentadas como uma proteção contra possíveis perdas provocadas pelo El Niño e seus efeitos sobre os preços dos alimentos.
A situação mais evidente é a do arroz. As 293 toneladas registradas nos armazéns públicos em julho são praticamente irrelevantes diante de uma produção nacional estimada em 11,1 milhões de toneladas na safra 2025/2026. O volume controlado pelo governo equivale a uma fração mínima do abastecimento do país.
A redução ocorreu ao longo dos últimos anos. Os estoques públicos de arroz somavam 21,6 mil toneladas em meados de 2021 e caíram para 1,8 mil toneladas em 2022. Em 2023, chegaram a zero. O governo encerrou 2025 com 224 toneladas e alcançou 293 toneladas em julho deste ano.
A nova portaria não estabelece previamente quantas toneladas serão compradas com os R$ 500 milhões. O volume dependerá dos preços definidos pela Conab nos leilões e das propostas apresentadas pelos produtores e pelas cooperativas.
Pela primeira vez, o governo poderá adquirir produtos por valores de até 25% acima do preço mínimo vigente. Isso não significa que a Conab pagará automaticamente 25% a mais do que o mercado. O percentual representa o limite máximo em relação ao preço mínimo oficial, enquanto o valor de abertura de cada leilão deverá considerar as cotações observadas nas regiões produtoras.
A mudança permite ao governo disputar o produto com compradores privados mesmo quando o preço de mercado estiver acima do mínimo. Pela regra anterior, a compra pública funcionava principalmente para sustentar o produtor durante períodos de preços baixos, mas tinha dificuldade para formar estoques quando o mercado estava aquecido.
O arroz é estratégico por seu peso direto na alimentação das famílias e na inflação. A produção de 11,1 milhões de toneladas prevista para 2025/2026 é 13,1% inferior à da temporada anterior. A Conab afirma que o volume é suficiente para atender ao consumo, mas a menor colheita reduz a margem de segurança diante de problemas climáticos, logísticos ou comerciais.
Os leilões poderão ocorrer em qualquer Estado produtor onde o preço de mercado apurado pela companhia esteja acima do preço mínimo. Poderão participar produtores rurais e cooperativas. O produto deverá ser arroz longo fino em casca, Tipo 1, com ajustes no preço conforme o rendimento de grãos inteiros efetivamente entregues.
No caso do milho, a função do estoque é diferente. O cereal não será destinado diretamente à alimentação das famílias, mas à manutenção de aves, suínos, bovinos, caprinos, ovinos e peixes. Por isso, qualquer alta do milho pode aparecer posteriormente nos preços dos ovos, do leite e das carnes.
O país deverá colher cerca de 143 milhões de toneladas de milho na safra 2025/2026 e encerrar o ciclo com um estoque comercial de passagem estimado em 15,58 milhões de toneladas. Ainda assim, o estoque público era de somente 125,5 mil toneladas em julho.
Essa diferença é importante. O estoque de passagem inclui o produto que permanece no mercado, principalmente em mãos de produtores, cooperativas, tradings e indústrias. Ele demonstra que existe milho disponível no país, mas não significa que o governo possa utilizar esse volume para atender uma região afetada pela seca ou conter uma alta localizada de preços.
Já o estoque público pertence à União e pode ser direcionado para políticas de abastecimento. O milho comprado pela Conab será utilizado no Programa de Venda em Balcão, que fornece o cereal a pequenos criadores, principalmente no Nordeste.
A autorização para comprar até 260 mil toneladas representa mais que o dobro do estoque público registrado em julho. Em relação ao mercado nacional, porém, o volume continua pequeno: equivale a aproximadamente um dia do consumo interno brasileiro de milho, estimado pela Conab em 95 milhões de toneladas por ano.
Isso mostra que o programa não possui dimensão suficiente para controlar o preço nacional do cereal. Sua função é localizada: impedir que pequenos criadores fiquem sem ração ou sejam obrigados a reduzir os rebanhos quando a seca encarece o milho e aumenta o custo do transporte.
A Lei 15.490/2026 também ampliou os produtos que podem abastecer o programa. Além do milho, a Conab poderá adquirir sorgo, caroço de algodão, farelo de soja, farelo de milho e outros ingredientes utilizados na alimentação animal. A diversificação permite substituir parte do milho quando houver oferta regional de produtos mais baratos.
Entre os alimentos de consumo direto, arroz e feijão são os mais estratégicos por formarem a base da alimentação brasileira. A produção de feijão está estimada em aproximadamente 3 milhões de toneladas, queda de 3,2% sobre a safra anterior. Apesar da importância do produto, o estoque público era de apenas 207 toneladas em julho.
O feijão exige uma política diferente porque possui menor prazo de armazenamento e grande diversidade de tipos consumidos regionalmente. O país conta ainda com três safras ao longo do ano, o que reduz a necessidade de manter volumes tão elevados quanto os de produtos colhidos em um único período. Mesmo assim, um estoque de apenas 207 toneladas oferece capacidade praticamente nula de intervenção em uma crise nacional.
O trigo representa outro ponto de atenção. A produção brasileira deverá cair 26,2% em 2026, para 5,8 milhões de toneladas, devido à redução da área e da produtividade. O país depende de importações para completar o abastecimento, principalmente de fornecedores do Mercosul, enquanto o estoque público soma somente 6,6 mil toneladas.
Em uma estratégia nacional de segurança alimentar, arroz, feijão, milho e trigo cumprem funções diferentes. Arroz e feijão protegem diretamente a cesta básica. O trigo reduz a exposição do pão e das massas ao mercado externo. O milho sustenta a produção de proteínas animais e tem importância especial em regiões com pequenos criadores sujeitos à seca.
Os estoques públicos também não devem ser confundidos com as compras de alimentos destinadas a cestas emergenciais. Nesse caso, a Conab adquire arroz beneficiado, feijão, farinha, leite em pó, óleo, açúcar, macarrão e outros itens para entrega a populações vulneráveis. São produtos destinados ao consumo imediato, e não necessariamente uma reserva reguladora capaz de interferir no mercado.
A formação de estoques pode atuar nas duas pontas. Durante a colheita, a compra retira parte da oferta e oferece uma alternativa de venda ao produtor. Em períodos de escassez, a liberação do produto ajuda a abastecer regiões afetadas e a reduzir movimentos especulativos nos preços.
Há, contudo, limites e riscos. Se comprar quando os preços estiverem elevados, o governo poderá gastar mais e contribuir para aumentar a disputa pelo produto. Se formar estoques excessivos, terá custos de armazenagem e risco de perda de qualidade. Se esperar a crise aparecer, poderá não encontrar alimento disponível em quantidade suficiente ou no local necessário.
Por isso, o efeito das novas medidas dependerá da rapidez dos leilões, dos volumes efetivamente adquiridos e da localização dos armazéns. Autorizar recursos e quantidades máximas não significa que todo o produto será comprado.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), engenheiro agrônomo Isan Rezende (foto), a iniciativa representa um primeiro passo para recuperar a capacidade de o governo agir diante de crises de abastecimento. Essa capacidade, porém, ainda é limitada: o estoque público de arroz está praticamente zerado e, embora a reserva de milho seja maior, o volume é pequeno diante das necessidades da pecuária.
Segundo Rezende, a efetividade da medida dependerá da rapidez das compras e da distribuição estratégica dos estoques, para que os produtos estejam disponíveis nas regiões mais vulneráveis antes que os efeitos do El Niño atinjam a produção e os preços.
“Estoque regulador não é instrumento para o governo substituir o mercado nem controlar preços artificialmente. Ele funciona como um seguro para o país: o poder público compra parte da produção em momentos de maior oferta e pode liberar o produto quando uma quebra de safra, uma enchente ou um problema logístico ameaça o abastecimento. Além de proteger o consumidor contra altas abruptas, essa política oferece uma referência de preço e reduz a vulnerabilidade dos produtores aos períodos de excesso de oferta”.
“O governo negligenciou essa função durante anos. Em julho, o estoque público era de apenas 293 toneladas de arroz e 207 toneladas de feijão, volumes insignificantes diante do consumo brasileiro. Não é razoável que uma potência agrícola chegue a um período de risco climático sem reservas mínimas dos alimentos mais importantes da cesta básica. A autorização para novas compras é positiva, mas revela uma política reativa: o governo está tentando formar o estoque quando o risco já está contratado”.
“A crise do arroz de 2024 deixou essa fragilidade evidente. As enchentes no Rio Grande do Sul, responsável pela maior parte da produção nacional, provocaram temor de desabastecimento e pressão sobre os preços. Como não havia reserva pública suficiente, o governo tentou organizar às pressas uma importação, por meio de um leilão que acabou cancelado. Dois anos depois, a lição deveria estar incorporada: estoques precisam ser formados antes da emergência, com metas permanentes, renovação dos produtos, armazéns próximos das regiões consumidoras e transparência sobre quando comprar e quando vender”, completou o presidente do IA.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócio
Agro ajuda Brasil a fechar agosto com superávit de R$ 37,7 bilhões
Publicado
9 de setembro de 2026, 10:00
O Brasil encerrou agosto com superávit comercial de R$ 37,7 bilhões, crescimento de 23,8% em relação ao mesmo mês de 2025. O resultado foi sustentado pelo aumento das exportações de soja, café, animais vivos, carne de frango e farelo de soja, além do avanço das vendas da indústria extrativa e de outros segmentos da indústria de transformação.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras somaram R$ 169,1 bilhões em agosto, alta de 12,2% na comparação anual. As importações cresceram 9,2% e alcançaram R$ 131,4 bilhões.
A corrente de comércio, que corresponde à soma das exportações e importações, movimentou R$ 300,5 bilhões no mês, aumento de 10,9% em relação a agosto do ano passado.
A agropecuária respondeu diretamente por R$ 37,7 bilhões em exportações durante agosto, crescimento de 11,4%. Esse valor considera os produtos classificados pelo governo como pertencentes à atividade agropecuária e não inclui carnes, farelo de soja, açúcar, sucos e outros itens processados contabilizados dentro da indústria de transformação.
Entre os produtos do campo, o valor das exportações de animais vivos avançou 174,3%. As vendas externas de café não torrado cresceram 24,1%, enquanto a soja, principal item da pauta agropecuária brasileira, registrou aumento de 14%.
A contribuição do agronegócio também apareceu entre os produtos industrializados. As exportações de carne de aves e miudezas aumentaram 40,5%, enquanto as vendas de farelo de soja e de outros produtos destinados à alimentação animal cresceram 36,6%.
O desempenho positivo compensou a retração observada em outras cadeias importantes. As exportações de milho não moído caíram 25,3% em agosto. Também houve redução de 34,7% no mel natural e de 35,7% nas vendas de sementes oleaginosas, grupo que inclui produtos como girassol, gergelim, canola e algodão.
Na indústria de transformação, o valor das exportações de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada recuou 19,7% em agosto. Açúcares e melaços tiveram queda de 37%. A redução mensal da carne bovina ocorreu depois de um período de embarques elevados e não anulou o crescimento acumulado pelo setor ao longo do ano.
Entre janeiro e agosto, o Brasil exportou R$ 1,28 trilhão, aumento de 10,3% na comparação com os primeiros oito meses de 2025. As importações somaram R$ 997,3 bilhões, com crescimento de 6,1%.
Com isso, o superávit comercial acumulado em 2026 chegou a R$ 282,1 bilhões, avanço de 28,2%. A corrente de comércio alcançou R$ 2,28 trilhões no período, alta de 8,4%.
As exportações classificadas como agropecuárias totalizaram R$ 295 bilhões entre janeiro e agosto, crescimento de 9,5%. O resultado foi favorecido pelo aumento de 81,9% nas vendas de animais vivos, de 15,2% nos embarques de soja e de 15,1% nas exportações de algodão em bruto.
A indústria extrativa exportou R$ 316,9 bilhões nos oito primeiros meses, alta de 19,6%. A indústria de transformação respondeu por R$ 660 bilhões, crescimento de 6,6%.
Apesar da queda isolada de agosto, a carne bovina acumulou aumento de 22,3% nas exportações de janeiro a agosto. O desempenho mostra que o recuo mensal ocorreu sobre uma base de vendas externas ainda elevada no conjunto do ano.
Outros produtos do agronegócio apresentaram resultado menos favorável. As exportações acumuladas de trigo e centeio diminuíram 31,3%, enquanto as de milho recuaram 3,6%. O café não torrado acumulou queda de 13,7%, apesar da recuperação registrada em agosto.
Também houve redução de 35,8% nas vendas externas de sucos de frutas e vegetais e de 28,2% nos embarques de açúcares e melaços durante os oito primeiros meses.
Do lado das compras brasileiras, as importações da agropecuária chegaram a R$ 2,4 bilhões em agosto, crescimento de 7,4%. O aumento foi influenciado por pescado, trigo, centeio e produtos hortícolas.
O valor das importações de pescado avançou 64,8%, enquanto as compras de trigo e centeio cresceram 10,5%. Os produtos hortícolas frescos ou refrigerados registraram alta de 54%. Em sentido contrário, as importações de soja diminuíram 22,2%, e as de frutas e nozes não oleaginosas recuaram 9,3%.
A indústria de transformação concentrou a maior parcela das compras externas, com R$ 123 bilhões em agosto, crescimento de 13,4%. No acumulado do ano, as importações do segmento chegaram a aproximadamente R$ 930 bilhões.
Entre os insumos estratégicos para a produção rural, o valor importado de adubos e fertilizantes químicos caiu 35,9% em agosto. As compras de fertilizantes brutos apresentaram redução de 15,6%.
A queda não significa necessariamente redução equivalente no volume desembarcado, porque os dados também refletem mudanças nos preços internacionais. O movimento pode estar relacionado ainda à antecipação de compras, à formação de estoques, à volatilidade do mercado e ao ritmo de aquisição para a safra 2026/2027.
Os números de agosto reforçam o papel do agronegócio na geração de receitas externas e na sustentação do saldo comercial brasileiro. Ao mesmo tempo, a diferença de desempenho entre as cadeias mostra que o resultado depende tanto da produção nacional quanto dos preços internacionais, do câmbio e das condições de acesso aos principais mercados compradores.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócio
Soja mais cara devolve fôlego à compra de fertilizantes
Publicado
9 de setembro de 2026, 09:30
A valorização da soja e a queda recente de alguns fertilizantes melhoraram o poder de compra do produtor brasileiro na reta final de preparação da safra 2026/2027. O alívio não eliminou o aumento dos custos acumulado durante o ano, mas permitiu que o setor atravessasse a forte volatilidade internacional sem comprometer o abastecimento das lavouras de soja que começam a ser plantadas no país.
A relação de troca mostra quantas sacas o produtor precisa vender para comprar uma tonelada de fertilizante. Quanto menor a quantidade exigida, maior é o poder de compra. O cálculo é mais útil que a análise isolada do preço do adubo, porque considera também a cotação recebida pela produção agrícola.
Essa relação melhorou durante agosto. Os fertilizantes nitrogenados registraram as maiores quedas, enquanto soja, milho e outras commodities recuperaram parte do valor perdido nos meses anteriores. Em Mato Grosso, por exemplo, os preços negociados para a soja da safra 2026/2027 acumularam valorização próxima de 10% em 30 dias, depois de terem ficado abaixo de R$ 100 por saca no início da comercialização.
A ureia recuou aproximadamente 12,5% durante agosto. Convertidas pela cotação atual do real, as referências internacionais de chegada aos portos brasileiros caíram de cerca de R$ 2.456 para R$ 2.148 por tonelada. O sulfato de amônio apresentou redução ainda maior, de aproximadamente 16%, passando de R$ 1.336 para perto de R$ 1.120 por tonelada.
A combinação entre fertilizante mais barato e grão mais valorizado reduziu o volume de produção necessário para pagar pelo insumo. Segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, o movimento reabriu uma janela de compras principalmente para os fertilizantes nitrogenados utilizados na segunda safra de milho.
O alívio veio depois de uma forte deterioração. Em março, quando a tensão no Oriente Médio provocou uma disparada nos preços, uma tonelada de ureia chegou a equivaler a 32 sacas de soja ou 59 sacas de milho. Um ano antes, eram necessárias 17 sacas de soja ou 33 de milho.
No caso do fosfato monoamônico, conhecido pela sigla MAP, a relação chegou a 39 sacas de soja ou 72 sacas de milho por tonelada, diante de 25 e 49 sacas, respectivamente, no mesmo período de 2025. Os cálculos consideravam o produto entregue no porto e, portanto, não incluíam frete até a fazenda, armazenagem e custos financeiros.
Não existe, contudo, uma única relação de troca válida para todo o Brasil. O resultado varia conforme a cotação do grão em cada região, a distância dos portos, o fertilizante adquirido, a data da negociação, o prazo de pagamento e o custo do transporte. Para produtores mais distantes dos pontos de entrada dos adubos, a conta geralmente exige um número maior de sacas.
A recuperação também não ocorreu de forma igual entre os nutrientes. Enquanto ureia, sulfato de amônio e cloreto de potássio recuaram, os fertilizantes fosfatados permaneceram caros. No fim de agosto, o MAP ainda equivalia a aproximadamente R$ 4.350 por tonelada nos portos brasileiros, antes do frete interno.
Uma das razões é a alta do enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação dos fosfatados. O preço médio do produto mais que dobrou desde janeiro, reduzindo o espaço para novas quedas do MAP e do superfosfato simples. Restrições à oferta internacional também continuam sustentando os preços.
Apesar disso, a maior parte da necessidade da soja já foi garantida. Estimativa da Agrinvest indica que os produtores brasileiros compraram cerca de 90% dos fertilizantes destinados à safra 2026/2027 da oleaginosa. O percentual reduz o risco de falta de produto durante a semeadura e limita o impacto de novas oscilações internacionais sobre o custo desta temporada.
A situação é diferente no milho. Aproximadamente 45% dos fertilizantes destinados à segunda safra de 2027 haviam sido adquiridos no início de setembro. Como o milho utiliza grande quantidade de nitrogênio, uma eventual retomada da alta da ureia poderá atingir uma parcela maior dos custos ainda não contratados.
O ritmo das importações ajuda a explicar a cautela. O Brasil comprou no exterior 22,39 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e julho, volume cerca de 7% inferior ao registrado no mesmo período de 2025. Somente em julho entraram 4,10 milhões de toneladas, queda de 14,4% na comparação anual.
No caso da ureia, as importações somaram 2,3 milhões de toneladas nos sete primeiros meses do ano, redução de 24,7%. Julho, entretanto, apresentou recuperação e registrou a entrada de 601 mil toneladas, o maior volume mensal de 2026.
O país continua altamente exposto às oscilações externas. Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que aproximadamente 93% dos fertilizantes utilizados em 2025 tiveram origem importada. Alterações no preço do petróleo e do gás natural, conflitos, sanções econômicas, restrições adotadas por grandes exportadores e problemas logísticos chegam rapidamente ao custo das lavouras brasileiras.
A antecipação das compras foi, portanto, uma das principais proteções adotadas pelos produtores de soja. Quem fechou parte dos insumos antes das maiores altas reduziu sua exposição. Quem esperou encontrou preços elevados durante o primeiro semestre, mas ganhou nova oportunidade com o recuo de agosto e a recuperação da oleaginosa.
O crédito passou a ser um obstáculo mais importante para as compras restantes. Produtores endividados ou com menor limite bancário podem ter dificuldade para aproveitar uma relação de troca mais favorável. Nesses casos, entram no planejamento alternativas como negociação a prazo com fornecedores, operações de troca por produção futura, cooperativas, Cédulas de Produto Rural e compras parceladas.
A melhora recente permite afirmar que a relação de troca ganhou fôlego, mas não que os fertilizantes tenham voltado à normalidade. O fosfato continua pressionando a soja, grande parte do adubo do milho ainda precisa ser comprada e o mercado internacional permanece sujeito a movimentos bruscos. Para o produtor, a proteção está em combinar compra escalonada, venda antecipada de parte da produção e cálculo da relação de troca nas condições efetivas de sua propriedade.
Fonte: Pensar Agro
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